quarta-feira, 4 de julho de 2012

OS SEMEADORES 24


OS SEMEADORES 24

( Século XVI)

Eis aí saiu o que semeia a semear.

MATH. XIII, 3



MACHADO DE ASSIS



Vós os que hoje colheis, por esses campos largos,

O doce fruto e a flor,

Acaso esquecereis os ásperos e amargos

Tempos do semeador?

Rude era o chão; agreste e longo aquele dia;

Contudo, esses heróis

Souberam resistir na afanosa porfia

Aos temporais e aos sóis.

Poucos; mas a vontade os poucos multiplica,

E a fé, e as orações

Fizeram transformar a terra pobre em rica

E os centos em milhões.

Nem somente o labor, mas o perigo, a fome,

O frio, a descalcês,

O morrer cada dia uma morte sem nome,

O morrê-la, talvez,

Entre bárbaras mãos, como se fora crime,

Como se fora réu

Quem lhe ensinara aquela ação pura e sublime

De as levantar ao céu!

Ó Paulos do sertão! Que dia e que batalha!

Venceste-a; e podeis

Entre as dobras dormir da secular mortalha;

Vivereis, vivereis!

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