quarta-feira, 23 de abril de 2014

CRISE DE REALIDADE (Jô Tauil)

CRISE DE REALIDADE (ensaio literário)
Maria José Zanini Tauil

Cortei em pedacinhos a fantasia, (isso é coisa de poeta) mas não tive
coragem de jogá-los fora. Um dia, acordamos e percebemos que aquela
roupa, (fantasia) já não nos serve, como se, num curto espaço de descanso,
a alma se dilatasse, sem caber no antigo espaço, onde tão bem se
acomodava. Estou nas palavras, mas ainda prefiro as entrelinhas. O que sei
dizer de mim é quase nada, perto do ser que em mim se oculta e que sangra
para dentro, como hemorragia interna.

Sinto-me cansada de assumir o que não quero. Ir embora é um processo que
acontece aos poucos; acho que já nasci partindo. Estou sofrida, por isso é
natural que palavras nasçam, jamais agressivas...indignadas somente.
Parece-me piegas descrever minhas angústias. Afetos desordenados são um
retrocesso, pois o amor não é inteligente. Refletir é o mesmo que erguer
casas, pois quanto mais conheço o vocabulário humano, percebo o quanto é
difícil chegar ao íntimo do outro sem pesar, sem ser incômodo.

Sinto-me também inadequada. Escrever é uma ventura perigosa, pois o
coração registra e se revela. Uma escrita nem sempre consegue alcançar,
veda espaços para que o sentimento não fuja ou se perca no caminho.

Ah! Palavra! Segura o significado do vivido, desafia o tempo, engana a
cronologia...mas a vida vivida, só encontra abrigo ali: na casa da palavra.
Se mal edificada, o outro intui, pressupõe conforme sua conveniência. Ela,
(a palavra) pode ser motivo de alargar distâncias, no mergulho do mistério
dos significados.

Só que a minha palavra é pedido de socorro, minha edificação literária é
torta e nela descanso minhas inquietações, hospedo minhas tristezas. Essa
edificação tem teto, que protege minha nudez e é onde escondo minhas
indigências. Mostro mais naquilo que oculto do que naquilo que revelo, pois
no avesso da minha negação, está a minha afirmação.

Não sou terapeuta e você não é paciente. Confidencio pressas e ansiedades,
tempos idos de minhas procuras, quando o coração desejava, mas não
saboreava desejos. Sofrer de juventude é destino e de senilidade também, se
a alcançamos. Lamentar perdas faz parte da vida e a realidade pode ser
cruel, pois o diamante brilha bem mais na vitrine.

Num mundo de especulações, não quero mais o cansaço do argumento,
discussões improdutivas, buscar inutilmente o lustre que o ego carece, pois
as intenções humanas nem sempre conseguem ser decifradas e isso não se
aprende com escolaridade.

Sinto o vento da simplicidade soprar em mim e ele me pede calma,
serenidade. Resolvi obedecer. Sonhos juvenis perdem o viço, o que causava
gozo, deixa de causar. A viagem de retorno pode ser fascinante...e ao mesmo
tempo, dolorosa. Felicidade não é lógica, quebrar regras, que nem sempre
conhecemos, pode gerar a dor que só o amor pode causar e isso ainda me
assombra, pois as teorias todas chegam às minhas páginas reais. Mergulho na
questão e concluo que a desilusão amorosa só tem razão de existir onde
houver uma história de amor.

Para mim, você foi a pessoa mais linda que no meu caminho cruzou. Parecia
personagem de literatura universal: inteligência, sensibilidade, luz
derramada nas minhas sombras; claridade que ainda me envolve e me arrebata.

Se nascemos um para o outro? Isso me parecia parte do nosso destino final,
mas eis a realidade: a estrutura do edifício está ruindo; o amor
fragmentou-se. Levarei, porém, até o último suspiro, essa minha
indagação: seria necessário o amor machucar tanto?

20/04/14 Domingo de Páscoa Campos do Jordão SP MJZTauil


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