sábado, 16 de agosto de 2014

OBSERVAÇÕES DO ARDAGA SOBRE "FAGULHAS", DE FILEMON MARTINS

OBSERVAÇÕES DO AMIGO ARDAGA SOBRE O LIVRO DE FILEMON MARTINS:
Caras irmãs e caros irmãos espalhados pela Mãe Gaia:

“Depois de passarmos pela ditadura militar, depois de recuperamos a
democracia, o povo readquiriu o direito de votar e escolher seus
governantes. Alimentamos novos sonhos, novas esperanças, imaginamos um
Brasil digno, decente, menos desigual e mais justo para com seus
filhos, mas a falta da caráter, a podridão, a ganância, a
desonestidade de nossos políticos cresceram assustadoramente,
amparados pela impunidade que toma conta do País.
A corrupção, ou melhor, os corruptos desviam verbas da educação,
saúde, habitação, segurança, saneamento básico, transportes, destroem
florestas, sugando o suor dos trabalhadores e dos aposentados do
Brasil inteiro, para suas contas bancárias no Brasil e no exterior.
Pior é que, aos poucos, novos escândalos vão surgindo e os velhos vão
caindo no esquecimento.”

“Não faz muito tempo, tivemos um presidente neoliberal que chamou os
aposentados de vagabundo. Uma ministra de estado disse que o povo era
apenas ‘um detalhe’. Para o ex-presidente da Câmara dos Deputados,
Severino Cavalcanti,, ‘reclamar do nepotismo é coisa de fracassado’.
Agora Lula diz que o brasileiro é comodista, ‘incapaz de levantar o
traseiro para buscar juros mais baratos’.
(...)
Ao contrário do que propalava em sua campanha eleitoral, o presidente
acolheu em seu governo pessoas de reputação duvidosa, para fazer
reformas e gerir recursos públicos. Como extirpar a corrupção e a
fraude, se o próprio governo mantém em seu seio, devedores do INSS e
fraudadores de todo jaez?
(...)
Imaginem se o presidente e o pelotão de elite do PT estivessem na
oposição, o que diriam da nomeação de ministros que frequentam as
páginas dos jornais com escândalos todos os dias? E o que dizer das
promessas de campanha feitas ao sabor do vento, que o presidente não
cumpriu e jamais irá cumpri-las?
O que existe, de fato, é um plano de poder. Não importa os meios. Não
importa como. O que antes era antiético agora é ético, o que era
imoral, agora é moral. Tudo se resolve com um troca-troca de favores,
a muque do ‘mensalão’.”

“É necessário que o cidadão brasileiro ponha sua memória a funcionar
e, através do voto, possa expurgar do Congresso Nacional estes
‘profissionais’ da política que nada acrescentam ao país, mas estão
preocupados apenas com suas contas pessoais. Não é tarefa fácil,
porque de um lado, estão os representantes dos banqueiros, dos
capitalistas, dos defensores das privatizações do patrimônio público,
cujos resultados já conhecemos: o dinheiro escapa pelo ralo da
improbidade administrativa e o país fica sem patrimônio, sem dinheiro
e continua devendo e... muito.
Do outro lado, estão os falsos moralistas que pregavam a ética, a
moralidade e uma vez no Poder, tornaram-se elite e armaram esquemas
mirabolantes para engordarem suas contas pessoais. Não é possível
confiar em quem prometeu e nada fez para cumprir do que prometera. Não
é prudente continuar com que teve em seu redor uma verdadeira
quadrilha apropriando-se do dinheiro público, no entanto ‘não sabia de
nada, nunca viu nada’ e consequentemente não fez nada. A elite, os
banqueiros, os capitalistas e a Comunidade Internacional não têm do
que reclamarem.
Mas o povo que acreditou e confiou, agora está diante do descalabro
atual e com certeza tem do que reclamar: menos educação, menos
emprego, menos saúde, menos segurança, menos investimentos, menos
pesquisas e mais impostos, mais evasão de divisas, mais corrupção,
mais falcatruas e mais descaso com as estradas brasileiras. Acorda,
Brasil!”

Fonte: “Fagulhas”, de Filemon F. Martins, Editora Scortecci


Como é sadio na convivência intelectual há muito em que concordamos e
há muito, também, que vemos diferente. O Filemon (ainda) vê, no país,
uma democracia. Eu já não só não a vejo, mas afirmo: NUNCA houve aqui.
Há uma coisa etiquetada de “democracia eleitoral”. Que nós (reles
povão) permite escolher entre merda e bosta de quatro em quatro anos.
Sem que fizesse alguma diferença substancial. E mesmo aquilo que
promete ser diferente e contra, antes de chegar ao doce bolo do poder
vulgo carta branca (verde-amarela?) de roubar o que quiser e puder,
imediatamente após eleição vitoriosa cumpre com o papel secular: rouba
a todo vapor. (Você mesmo o descreveu acima.)

Também por isso repito: Enquanto o povo desumanizado – do Mundo – não
assimilar as oportunidades inerentes aos anarquismos (plural!) e,
também, seus feitos enquanto por períodos breves como na Espanha
pré-fascista em Ação através governos genuinamente populares – e não
manter interiorizadas as mentiras e distorções implantadas pelos (que
estão no poder) que têm razão de temê-los (as inerentes oportunidades
dos anarquismos), não haverá mudança essencial. E se a Rede
Sustentabilidade da Marina e da Heloisa milagrosamente chegaria pelo
funcionalismo da “democracia eleitoral” ao poder, e se ela – a Rede –
mais milagrosamente ainda, não se corromperia..., ainda estaríamos
longe de uma Democracia Plena. Do efetivo Poder do Povo.

Tampouco acredito mais (já acreditei!) que nem você naquela máxima do
“Bom Povo Brasileiro” vítima dos governantes ruins. O Brasileiro não
só vota nos bandidos por ingenuidade. Mas porque admira. E faria a
mesma coisa se estiver numa posição privilegiada (nos picos do poder).
É, num lado explicável pelo poder corrosivo do próprio poder. Más é,
também enraizado culturalmente no povo: o Jeitinho Brasileiro é que
criou e recria com cada dia o monstro do Jeitão Brasileiro. Da Liga
dos Campeões da Corrupção. Onde só craque joga. Do Sarney até
Odebrecht. Os intocáveis da Cleptocracia que mata quem estiver no seu
caminho.

E a esperança que, como se diz aqui com freqüência, nunca morre, no
meu caso já ta meio moribundo. Porque com cada ano que passa (to
falando agora da minha permanente experiência empírica aqui no
Nordeste) percebo que fica cada vez mais difícil de encontrar uma
pessoa com a qual sequer conversar, trocar ideia. Porque trata-se de
um segmento de Brasileiras e Brasileiros em vias de extinção. Não é
acaso que sempre quando puder me “refugio” nas vilas mais remotas da
Chapada Diamantina (de preferência SM luz-para-todos). Onde ainda há
um punhado de velhos não-contaminados pelo ópio bombeado diariamente
nas cabeças da nação. Que, entretanto, não conseguem mais passar seus
valores (e sua independência) pros seus filhos e netos. A concorrência
da cultura do fútil e da submissão e do consumismo-über-alles
divulgada e atiçada pela mídia de idiotização e do controle em massa é
adversário forte demais pra esses velhos. Se resignam. Esperando a
morte levar eles pro um mundo menos alienado.

Gosto muito, entre alguns outros aspectos culturais da nossa região,
uma boa cachacinha artesanal. E são uns dos poucos momentos felizes
que tenho quando reunido com uns velhos (quase todos eles acima de 70)
num botequim numa vila nalgum ermo por aí. Gente que ainda tem a
qualidade de ouvir. Quase extinta já! Gente que só fala quando tem
algo a dizer. Mais rara que nem diamante. Não só aqui, na Chapada
Diamantina!

Mas no momento que entra um dos típicos “novos baianos” (ou
pernambucanos ou paraibanos, tanto faz) pago e corro. Pouco oi nada
importa se for roceiro ou (pior!) “doutor da cidade”. Porque é
garantia que a interminável e insuportável gritaria de banalidades
repetitivas (prefabricadas e inseridas no sujeito) começa. Tortura
(pra mim) que não me submeto mais. Antes amigo-da-onça! Prefiro tomar
minha pinga boa em casa ou no mato, muito obrigado.
E são ESSES (formados por Xuxa e Faustão e Datena...), meu caro amigo
otimista Filemon, que estão substituindo gradativamente os velhos. Em
termos de VOTOS inclusive.

E isto não me dá esperança nenhuma (que o país acordará). Antes medo.
(Mas espero muito de estar errado! Oxalá!)

Um Mundo – Um Amor – Muitas Culturas

PS: Escrevendo (e assim revivendo) estes horrores reais do país me
custa muita energia. E só consigo, que nem agora mesmo, numa escura
tarde chuvosa (aleluia!) com um contrapeso emocional. Escutando a
belíssima gravação de Rigoletto de Verdi do ano 1989 com Luciano
Pavarotti, June Anderson (...) e a “Orchestra del Teatro Comunale di
Bologna”.
Isto (me) ajuda a aguentar de ter que remoer o que vivemos aqui,
diariamente, ainda em escrito.



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