domingo, 12 de julho de 2015

A NATUREZA
Khalil Gibran

Ao romper do dia, sentei-me na campina, travando conversa com a Natureza, enquanto o Homem ainda descansava sossegadamente nas dobras da sonolência. Deitei-me na relva verde e comecei a meditar sobre estas perguntas: – Será a Beleza Verdade? Será Verdade a Beleza? E em meus pensamentos vi-me levado para longe da humanidade. Minha imaginação descerrou o véu de matéria que escondia meu íntimo. Minha alma expandiu-se e senti- me ligado à Natureza e a seus segredos. Meus ouvidos puseram-se atentos à linguagem de suas maravilhas. Assim que me sentei e me entreguei profundamente à meditação, senti uma brisa perpassando através dos galhos das árvores e percebi um suspiro como o de um órfão perdido. – “Por que te lamentas, brisa amorosa?” perguntei. E a brisa respondeu: – “Porque vim da cidade que se escalda sob o calor do sol, e os germes das pragas e contaminações agregaram-se às minhas vestes puras. Podes culpar-me por lamentar-me?” Mirei depois as faces de lágrimas coloridas das flores e ouvi seu terno lamento... E indaguei: – “Por que chorais, minhas flores maravilhosas?” Uma delas ergueu a cabeça graciosa e murmurou: – “Choramos porque o Homem virá e nos arrancará, e nos porá à venda nos mercados da cidade.” E outra flor acrescentou: – “À noite, quando estivermos murchas, ele nos atirará no monte de lixo. Choramos porque a mão cruel do Homem nos arranca de nossas moradas nativas.” Ouvi também um riacho lamentando-se como uma viúva que chorasse o filho morto, e o interroguei: – “Por que choras meu límpido riacho?” E o riacho retrucou: – “Porque sou compelido a ir à cidade, onde o Homem me despreza e me rejeita pelas bebidas fortes, e faz de mim carregador de seu lixo, polui minha pureza e transforma minha serventia em imundície.” Escutei, ainda, os pássaros soluçando e os interpelei: – “Por que chorais meus belos pássaros?” E um deles voou para perto, pousou na ponta de um ramo e justificou: – “Daqui a pouco, os filhos de Adão virão a este campo com suas armas destruidoras e desencadearão uma guerra contra nós, como se fôssemos seus inimigos mortais. Agora estamos nos despedindo uns dos outros, pois não sabemos quais de nós escaparão à fúria do Homem. A morte nos segue, aonde quer que vamos.” Então o sol já se levantava por trás dos picos da montanha e coloria os topos das árvores com auréolas douradas. Contemplei tão grande beleza e me perguntei: – “Por que o homem deve destruir o que a Natureza construiu?”


Gibran Khalil Gibran nasceu em Bicharre/Líbano, em 6 de janeiro de 1883, também conhecido simplesmente como Khalil Gibran), foi um ensaísta, filósofo, prosador, poeta, conferencista e pintor de origem libanesa, cujos escritos, eivados de profunda e simples beleza e espiritualidade, alcançaram a admiração do público de todo o mundo. Seu nome completo, transliterado para línguas ocidentais (de base alfabética predominantemente neo-latina), é Gibran Khalil Gibran, assim assinando em árabe. Em inglês (pois foi nos Estados Unidos que ele desenvolveu a maior parte da sua atividade produtiva, preferiu a forma reduzida e ligeiramente modificada de Khalil Gibran. E assim se conhece em todo o mundo ocidental. Em sua relativamente curta, porém prolífica existência (viveu apenas 48 anos), Khalil Gibran produziu obra literária acentuada e artisticamente marcada pelo misticismo oriental, que — por essa razão (carece de fontes) — alcançou popularidade em todo o mundo. Sua obra, acentuadamente romântica e influenciada por fontes de aparente contraste como a Bíblia, Nietzsche e William Blake, trata de temas como o amor, a amizade, a morte e a natureza, entre outros. Escrita em inglês e árabe, expressa as inclinações religiosas e místicas do autor. Sua obra mais conhecida é o livro O Profeta, que foi originalmente publicado no idioma inglês e traduzido para inúmeros outros idiomas mundo afora. Outro livro de destaque é Asas Partidas, em que o autor fala de sua primeira história de amor. Gibran Khalil Gibran faleceu em 10 de abril de 1931 (Nova Iorque, Estados Unidos).

(ALMANAQUE CHUVA DE VERSOS Nº 411, JOSÉ FELDMAN) 

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