domingo, 29 de julho de 2012

SAUDADES

SAUDADES.
Casimiro de Abreu

Nas horas mortas da noite

Como é doce o meditar

Quando as estrelas cintilam

Nas ondas quietas do mar;

Quando a lua majestosa

Surgindo linda e formosa,

Como donzela vaidosa

Nas águas se vai mirar!


Nessas horas de silêncio,

De tristezas e de amor,

Eu gosto de ouvir ao longe,

Cheio de mágoa e de dor,

O sino do campanário

Que fala tão solitário

Com esse som mortuário

Que nos enche de pavor.


Então – proscrito e sozinho –

Eu solto aos ecos da serra
Suspiros dessa saudade

Que no meu peito se encerra.

Esses prantos de amargores

São prantos cheios de dores:

– Saudades – dos meus amores,

– Saudades – da minha terra !

....1856


sábado, 28 de julho de 2012

BARRA DO MENDES


BARRA DO MENDES



FILEMON  F. MARTINS 

Plantada no Sertão, Velha Chapada,
aos pés da bela Serra Santa Cruz,
Barra do Mendes cresce, abençoada,
sob o signo da Fé, plena de Luz.

A Natureza esbelta foi talhada,
mas a Amizade é flor que nos seduz,
porque a cidade acolhe gente honrada
e a um futuro brilhante nos conduz.

Grutas, lagoas, rios, cachoeiras,
paisagens deslumbrantes, gameleiras,
riquezas naturais que tu deténs.

Bem haja o teu valor, Barramendense,
o teu progresso a todos já convence,
eu te saúdo, então, meus parabéns!

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O MORCEGO


O MORCEGO



AUGUSTO DOS ANJOS



Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.

Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:

Na bruta ardência orgânica dasede,

Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.



“Vou mandar levantar outra parede...”

-- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho

E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,

Circularmente sobre a minha rede!



Pego de um pau. Esforços faço. Chego

A tocá-lo. Minh’alma se concentra.

Que ventre produziu tão feio parto?!



A Consciência Humana é este morcego!

Por mais que a gente faça, à noite ele entra

Imperceptivelmente em nosso quarto!


domingo, 8 de julho de 2012

VIAGEM


                           VIAGEM



De 11 a 28 de julho de 2012, eu e o mano Gutemberg seguiremos para Palmas, Tocantins. Lá nos encontraremos com o também mano Mário Ribeiro Martins e seguiremos de carro, até Ipupiara, interior da Bahia. Visitaremos algumas cidades da região. Por esta razão, é possível que o blog do Filemon sofra alguma continuidade, mesmo porque não sei como é a Internet por lá. Se houver condições, continuaremos a postar nossos poemas. Se não, só em meu retorno à Itanhaém, litoral sul de São Paulo. Meu agradecimento a todos pela compreensão. FILEMON MARTINS.

FANATISMO


FANATISMO


 


FLORBELA ESPANCA


 


Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.

Meus olhos andam cegos de te ver!

Não és sequer razão do meu viver,

Pois que tu és já toda a minha vida!



Não vejo nada assim enlouquecida...

Passo no mundo, meu Amor, a ler

No misterioso livro do teu ser

A mesma história tantas vezes lida!



“Tudo no mundo é frágil, tudo passa... ”

Quando me dizem isto, toda a graça

Duma boca divina fala em mim!



E, olhos postos em ti, digo de rastros:

“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,

Que tu és como Deus: Princípio e Fim! ... ”

sexta-feira, 6 de julho de 2012

TUDO QUANTO PENSO


Tudo quanto penso



FERNANDO PESSOA



Tudo quanto penso,

Tudo quanto sou

É um deserto imenso

Onde nem eu estou.



Extensão parada

Sem nada a estar ali,

Areia peneirada

Vou dar-lhe a ferroada

Da vida que vivi.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

SAUDADE


Saudade



– Bom dia, Felicidade...

com tanta pressa aonde vais?

– Vou plantar uma saudade

onde o amor não volta mais!...

Augusto Rubião

Eu penso, quando anoitece,

vendo o céu todo em fulgor,

que cada estrela é uma prece

aos pés de Nosso Senhor!

Colombina

Eis que o destino descobre

a sorte que Deus me deu

:ninguém na vida é mais pobre...

nem mais feliz do que eu!

Latour Arueira

Por amar já sofri tanto

que sinto, por meus cuidados,

que o mar é feito do pranto

dos olhos dos namorados...

Renê Guimarães


quarta-feira, 4 de julho de 2012

OS SEMEADORES 24


OS SEMEADORES 24

( Século XVI)

Eis aí saiu o que semeia a semear.

MATH. XIII, 3



MACHADO DE ASSIS



Vós os que hoje colheis, por esses campos largos,

O doce fruto e a flor,

Acaso esquecereis os ásperos e amargos

Tempos do semeador?

Rude era o chão; agreste e longo aquele dia;

Contudo, esses heróis

Souberam resistir na afanosa porfia

Aos temporais e aos sóis.

Poucos; mas a vontade os poucos multiplica,

E a fé, e as orações

Fizeram transformar a terra pobre em rica

E os centos em milhões.

Nem somente o labor, mas o perigo, a fome,

O frio, a descalcês,

O morrer cada dia uma morte sem nome,

O morrê-la, talvez,

Entre bárbaras mãos, como se fora crime,

Como se fora réu

Quem lhe ensinara aquela ação pura e sublime

De as levantar ao céu!

Ó Paulos do sertão! Que dia e que batalha!

Venceste-a; e podeis

Entre as dobras dormir da secular mortalha;

Vivereis, vivereis!

terça-feira, 3 de julho de 2012

3ª SOMBRA


3ª SOMBRA

Ester



CASTRO ALVES



Vem! no teu peito cálido e brilhante

O nardo oriental melhor transpira!...

Enrola-te na longa caxemira,

Como as Judias moles do Levante,



Alva a clâmide aos ventos — roçagante...,

Túmido o lábio, onde o saltério gira...

Ó musa de Israel! pega da lira...

Canta os martírios de teu povo errante!



Mas não... brisa da pátria além revoa,

E ao delamber-lhe o braço alabastro,

Falou-lhe de partir... e parte... e voa...



Qual nas algas marinhas desce um astro...

Linda Ester! teu perfil se esvai... s’escoa...

Só me resta um perfume... um canto... um rastro...

segunda-feira, 2 de julho de 2012

INANIA VERBA


Inania verba



OLAVO BILAC



Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,

O que a boca não diz, o que a mão não escreve?

- Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,

Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...



O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:

A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...

E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,

Que, perfume e clarão, refulgia e voava.



Quem o molde achará para a expressão de tudo?

Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas

Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?



E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?

E as palavras de fé que nunca foram ditas?

E as confissões de amor que morrem na garganta?!