sexta-feira, 31 de julho de 2015

TRIBUTO AO TEMPO (DALAI LAMA)

TRIBUTO AO TEMPO
DALAI LAMA

 Dizem que a vida é curta, mas não é verdade.
A vida é longa para quem consegue viver pequenas felicidades.
E essa tal felicidade anda por aí, disfarçada,
como uma criança brincando de esconde-esconde.
Infelizmente às vezes não percebemos isso
e passamos nossa  existência colecionando nãos:
-a viagem que não fizemos, o presente que não demos,
a festa à qual não fomos, o amor que não vivemos,
o perfume que  não sentimos...
A vida é mais emocionante quando se é ator e não espectador.
Quando se é piloto e não passageiro, pássaro e não paisagem,
cavaleiro  e  não montaria!
E como ela é feita de instantes,
não pode e nem deve ser medida  em anos ou meses,
mas em minutos e segundos.
Esta mensagem é um TRIBUTO AO TEMPO.
Tanto àquele tempo que você soube aproveitar no passado,
quanto àquele tempo que você não vai desperdiçar no futuro.
Porque a vida é agora!!
"Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito.
Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto,
hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver.

(FONTE: AVBAP)










quinta-feira, 30 de julho de 2015

LAÇOS DESFEITOS (MIGUEL RUSSOWSKY)

LAÇOS DESFEITOS
MIGUEL RUSSOWSKY

“Hoje partes... (A morte ronda perto).
Tens outro amor? Pois vai. Não és perjura.
Amor de um lado só, bem sei, não dura.
Talvez eu sobreviva ao lar deserto.

Hoje te vais!... És pássaro liberto.
Não hei de maldizer a noite escura.
Já tive meus momentos de ventura,
que eu paguei agora o preço justo e certo.

Se um novo amor anula outros amores...
Vai então! Sê feliz!... e se puderes
não lembres mais de mim. Ó sina crua!

Leva tudo daqui quando te fores,
só não retira a dor com que me feres...

Quero que reste alguma coisa tua.”

quarta-feira, 29 de julho de 2015

SAUDADE (MIGUEL RUSSOWSKY)

SAUDADE
Miguel Russowsky

Quando a saudade quer... se assenta no sofá
da varanda vazia (ou então na cozinha)
e se põe a escrever... Às vezes toma chá
e mastiga, em silêncio, alguma bolachinha.

(Eu via que a saudade, ultimamente vinha
com letras de “Tristeza” exposta no crachá.
E só muito depois, por insistência minha,
fazia a solidão não parecer tão má.)

... “e se põe a escrever”, - conforme atrás eu disse –
com talento invulgar, querendo que a velhice
não seja uma ilusão que murchou e se esvai.

“Quando a saudade escreve...” a caneta soluça
e a tarde, sem querer, quatro rimas debruça

num soneto de luto... e uma lágrima cai.

terça-feira, 28 de julho de 2015

TROVAS DIVERSAS

TROVAS

Escolha um solo fecundo,
prepare-o com muito ardor,
e com fervor mais profundo
plante a semente do amor!
JERRY FILHO
Vejo a prova fulgurante
de um Poder que não tem fim,
numa estrela – bem distante,
na vida – dentro de mim.
CARLOS RIBEIRO ROCHA
Aquele que quer na vida
pensar somente em ter sorte...
Não lembra, com tanta lida,
que tudo acaba com a morte.
LAURENTINA MARTINS DOS SANTOS
Com olhos fitos no chão,
você só vê a tristeza.
Levante a cabeça, irmão,
e contemple a natureza!
MÁRIO R. MARTINS

(Jornal O RADAR, coluna TROVAS, de Maria Thereza Cavalheiro, abril/99)

segunda-feira, 27 de julho de 2015

REPORTAGEM DA VEJA

VEJA, que vai para as bancas dia 29/07/2015 traz uma reportagem mais que interessante. Logo na capa: “A VEZ DELE – AMIGO DE LULA, O EMPREITEIRO LÉO PINHEIRO DECIDIU CONTAR AO MINISTÉRIO PÚBLICO TUDO O QUE SABE SOBRE A PARTICIPAÇÃO DO EX-PRESIDENTE NO PETROLÃO E COMO O FILHO LULINHA FICOU MILIONÁRIO”. Nas páginas 51/61, uma bomba: “A LISTA DOS POLÍTICOS QUE RECEBERAM PROPINA. OS NEGÓCIOS MILIONÁRIOS DO FILHO DE LULA. DESPESAS PESSOAIS DO EX-PRESIDENTE FORAM PAGAS PELAS EMPREITEIRAS. LULA SABIA DO ESQUEMA DE CORRUPÇÃO NA PETROBRÁS. SEGREDOS DEVASTADORES. EXECUTIVO DA OAS SE OFERECE PARA FAZER ACORDO DE DELAÇÃO PREMIADA COM O MINISTÉRIO PÚBLICO. EM TROCA DE BENEFÍCIOS LEGAIS, ELE PROMETE REVELAR O QUE VIU, OUVIU E FEZ NOS ANOS EM QUE COMPARTILHOU DA INTIMIDADE DE LULA E SUA FAMÍLIA”.
A vez dele está chegando.
Colhidas todas as provas, se for ladrão, cadeia nele. Assim, de alma lavada, mesmo depois de aposentado, vou continuar pagando 11% do meu salário como faz outros aposentados e pensionistas do Judiciário Federal, graças às artimanhas do Congresso Mensalão. Escapou do mensalão, mas não escapará do petrolão. Cadeia nele!

Filemon Martins
Itanhaém – SP.


domingo, 26 de julho de 2015

INGRATIDÃO

INGRATIDÃO
RAUL DE LEONI (Petrópolis-RJ-1895/1926)

Nunca mais me esqueci!... Era criança
e em meu velho quintal, ao sol-nascente,
plantei, com minha mão ingênua e mansa,
uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança...
cresceu... cresceu... e aos poucos, suavemente,
pendeu os ramos sobre um muro em frente
e foi frutificar na vizinhança...

Daí por diante, pela vida inteira,
todas as grandes árvores que em minhas
terras, num sonho esplêndido semeio,

como aquela magnífica amendoeira,
reflorescem nas chácaras vizinhas
e vão dar frutos no pomar alheio...


(Do site FALANDO DE TROVA)

sexta-feira, 24 de julho de 2015

LÍRICA DO TEMPO (CÉLIA LAMOUNIER)

LÍRICA DO TEMPO
CÉLIA LAMOUNIER

O tempo cavalga cavalos
ondula na eternidade
manto negro, noite da vida
céu azul, vida e saudade.
Eu pequenino nesta imensidão
passo como o vento indiferente,
perplexo passo coração
nem descobre o inconsequente.
A vida é um segundo no tempo.

(FONTE: ANTOLOGIA 13, POSTAL CLUBE, PÁGINA 27)


quinta-feira, 23 de julho de 2015

MERGULHO EM VOCÊ MESMO (MAHATMA GHANDI)

Mergulho em você mesmo
Mahatma Ghandi

Temos medo de estarmos conosco, mergulharmos em nosso interior. O silêncio e sua prática nos leva a esta possibilidade de encontro profundo e revitalizador. Com o silêncio, encontramos a paz e o amor incondicional vem com toda a força transformadora. "O amor é a força mais sutil do mundo. O mundo está farto de ódio". E é este ódio irracional e distante da força criadora que destrói, corrompe e ensurdece a humanidade. Pare! Recomece! Reprograme-se... O silêncio pode ser o ponto chave desta nova caminhada. Pratique-o diariamente e transforme um pouco nosso mundo. Ouça-se. "Temos de nos tornar a mudança que queremos ver no mundo. Você tem que ser o espelho da mudança que está propondo. Se eu quero mudar o mundo, tenho que começar por mim." Pratique diariamente o silêncio da paz. Respire profundamente algumas vezes. Inspire e sopre lentamente até ir relaxando e mergulhando dentro de si mesmo. Feche os olhos e silencie seus medos, preocupações e ansiedades diárias, por alguns momentos. Dê a chance à sua paz e a paz do mundo. "Faça a sua parte, se doe sem medo. O que importa mesmo é o que você é... Mesmo que outras pessoas não se importem. Atitudes simples podem melhorar sua vida." Você nunca sabe que resultados virão da sua ação. Mas se você não fizer nada, não existirão resultados. Espalhe esta ideia. Transforme o mundo, a partir de você. "Seja a mudança que você deseja para o mundo".


(FONTE ALMANAQUE CHUVA DE VERSOS Nº 414, JOSÉ FELDMAN)

OS GUARANIS (BEATRIZ DUTRA)

OS GUARANIS
Beatriz Dutra

Houve um tempo
Em que Peri amou Ceci.
Tempo de águas cristalinas
E verde verdejante.
Tempo de caça e pesca
Abundantes.
Tempo em que os índios
Cantavam, dançavam
E eram felizes.
Hoje, os guaranis imolam-se.
Acuados e desesperançados,
Para sobreviverem
Tornam-se boias-frias.
Depois, alcoólatras.
Por fim,
Ante a falta de perspectivas,
Matam-se,
Na expectativa
De reencontrarem
A almejada liberdade
E a perdida felicidade.


(O JORNALZINHO, JUL/AGO/2015, PÁGINA 4)

quarta-feira, 22 de julho de 2015

LEMBRANÇAS (VERA DE BARCELLOS)

LEMBRANÇAS
Vera de Barcellos

Sim, por que não?
Correr pelas campinas verdejantes
À procura de seu amor volver
Paisagens exóticas
Montes e montanhas...
Vales e florestas...
Mares e rios...
Descortinar saltos inebriados de emoção
Envolvendo outros a dançarem suas rapsódias
Valsando pelos sonhos cheios de saudades
De um tempo que faz parte hoje
De um álbum de fotografias...
Lembranças...


(O JORNALZINHO, JUL/AGO/2015, PÁGINA 7)

terça-feira, 21 de julho de 2015

TROVAS SOBRE CASTRO ALVES (PORPHÍRIO RODRIGUES)

TROVAS SOBRE CASTRO ALVES
PORPHÍRIO RODRIGUES

Foi na Bahia dos Bravos,
De um povo heroico e fiel,
Que o Poeta dos Escravos
Serviu de Musa à ISABEL.

CAMÕES, Poeta da Raça.
CASTRO ALVES é dos Escravos.
Em prece, o Mundo os abraça.
Duas Pátrias de homens bravos.

Também CASTRO ALVES, Cecéu,
Deu a colaboração,
Com versos limpou labéu,
Ajudou na abolição.

CASTRO ALVES, o brasileiro
Vê o seu tempo voltar...
Brasil, Navio Negreiro
A pique de se afundar...


segunda-feira, 20 de julho de 2015

SEM NOME (ARACI BARRETO)

SEM NOME
ARACI BARRETO

O meu coração
pulsa forte com as dores da paixão.
O meu pensamento
amargura carregando este tormento.
Sigo nesta estrada
observando a vida
chega de saudade
sara esta ferida
Senhor!
Queria tanto!


(O JORNALZINHO Nº 214, PÁGINA 2)

domingo, 19 de julho de 2015

FELICIDADE II

FELICIDADE II
Filemon F. Martins


E a minha alma se abre, fica leve
ao ver que o mundo pode ser feliz.
Basta, às vezes, tão pouco:
um simples gesto,
uma palavra de amor,
um aperto de mão,
ou um sorriso acolhedor.


VERSOS SOLTOS (DULCE ANA DA SILVA FERNANDEZ)

VERSOS SOLTOS
DULCE ANA DA SILVA FERNANDEZ
TIETÊ/SP

Contornando pedras,
Rabiscando nuvens,
Olhando o sorriso das flores,
Juntando simples palavras,
Escrevo ao léu, ao vento,
Sem bússola, nem documento.

São palavras formando versos:
Soltos
    Tolos
Desesperados...
Às vezes voam livres, como pássaros
De asas abertas.
Vezes outras flutuam, velejam tristes
Num mar de lágrimas.
Caminham ciganos, curiosos,
Andarilhos, hippies,
Desvendando veredas,
Contando vivências,
Cantando desnudas proezas.

São simples versos:
Falando das vidas
Dizendo das mortes...


(AGENDA – DIAS DE POESIA – 2003/2004)

sábado, 18 de julho de 2015

DIA DO TROVADOR (ELIANA RUIZ JIMENEZ)

Eliana Ruiz Jimenez
Dia do Trovador

O poeta é detentor de uma sensibilidade aguçada e tem a necessidade de compartilhar a sua visão emocional e os seus sentimentos com as outras pessoas, transformando essas impressões em versos, que podem ser livres, ou em formatos predeterminados, como na trova, por exemplo. Os versos livres costumam surgir de repente e arrebatam o poeta onde ele estiver. É preciso segurar a ideia, transpô-la imediatamente para o papel antes que o sopro inspirador se dilua e as palavras se percam. Já a trova é a expressão poética trabalhada. De formato rígido, requer métrica e rimas, além da expressão de um pensamento completo em quatro versos, sendo que o último arremata a reflexão com um grande final. Habilidoso, o trovador precisa adequar o querer dizer na precisão das sete sílabas tônicas e ainda provocar no leitor a empatia com a saudade sentida, com o coração partido e – por que não dizer? – com as reminiscências que cada um traz consigo. Audacioso, o trovador elabora a trova com sofisticação, procurando justapor as palavras num encaixe cuidadoso, observando tanto a forma como a sonoridade, procurando a rima inédita, notável. Vale pensar, refazer, pois o que importa é o resultado perfeito. A trova é, portanto, a ideia sintetizada, a comunicação imediata, que pode trazer tanto um pensamento filosófico como a sabedoria da experiência, o humor ou o lirismo. Quando finalmente pronta, a trova é como o filho criado, independente, que percorre o mundo levando a mensagem de seu criador. Nesse oceano de trovas brilhantes, os trovadores são amigos fraternos que, embalados pela mesma inspiração poética, vão compartilhando a vida nos versos, falem eles das dores sentidas ou das alegrias da jornada. No dia 18 de julho, data de nascimento de Luiz Otávio, responsável pela consolidação do movimento trovadoresco no Brasil, é comemorado o dia do trovador, data em que todos os poetas e admiradores dessa bela e requintada expressão poética relembram o saudoso e querido amigo, principalmente com a leitura de suas belas trovas, tão contemporâneas, que nos deixam a certeza de um homem que viveu à frente de seu tempo. Fonte:

 http://poesiasurbanasetrovas.blogspot.com.br/p/trovas.html

sexta-feira, 17 de julho de 2015

PEDRA BRUTA (AMILTON MACIEL MONTEIRO)

PEDRA BRUTA
Amilton Maciel Monteiro - São José dos Campos/SP - 

Pedra bruta que sou me dá trabalho
tirar de mim as lascas a cinzel...
Quantas vezes já errei bastante o malho,
deixando uma das mãos feito um pastel!

Quantas vezes também que eu me atrapalho
e mando tudo para o beleléu...
Depois, se recomeço, já em frangalho,
só Deus sabe o quanto isto é tão cruel!

Foram, assim, dez lustros de labuta,
mas continuo apenas pedra bruta...
e mil pedaços já arranquei de mim!

Tomara que me venha alguém bem destro
e à lapidação coloque um fim,
para eu poder só labutar com o estro!


(ALMANAQUE CHUVA DE VERSOS Nº 412, JOSÉ FELDMAN)

terça-feira, 14 de julho de 2015

TROVAS DIVERSAS

Não te maldigas, querida,
mesmo se a dor te magoa:
– é sempre feliz na vida
a alma que é pura e boa.
     Auta de Souza -  1876 – 1901, Natal/RN

Tudo se gasta e se afeia,
tudo desmaia e se apaga,
como um nome sobre a areia,
quando cresce e corre a vaga.
     Casimiro José Marques de Abreu 1837 – 1860, Nova Friburgo/RJ

Na hora em que a terra dorme, 
enrolada em frios véus,
eu ouço uma reza enorme
enchendo o abismo dos céus.
     Antônio de Castro Alves 1847 – 1871, Salvador/BA

Outrora, em tardes serenas,
chorei sob uns ramos largos;
e esses ramos, hoje, apenas
sabem dar frutos amargos.
     Humberto de Campos 1886 – 1934, Rio de Janeiro/RJ

  



 (ALMANAQUE CHUVA DE VERSOS Nº 411, JOSÉ FELDMAN)

segunda-feira, 13 de julho de 2015

ALMANAQUE CHUVA DE VERSOS Nº 411, JOSÉ FELDMAN

ALMANAQUE CHUVA DE VERSOS Nº 411, JOSÉ FELDMAN

Uma Trova de Curitiba/PR
Emiliano David Perneta - 1866 – 1921

Poeta é a eterna criança
correndo atrás da ilusão,
que lhe foge, e ele não cansa
de tanto correr em vão!

Uma Trova de São Paulo/SP
Manuel Antonio Álvares de Azevedo - 1831 – 1852, Rio de Janeiro/RJ

Quero viver de esperança,
quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
quero sonhar e dormir!…

Uma Trova de Itabira/SP
Paulo Menotti Del Picchia - 1892 – 1988, São Paulo/SP

Às vezes também, risonho,
um sonho minha alma junca;
corro doido atrás do sonho,
sem poder tocá-lo nunca.

Uma Trova de Ouro Preto/MG
Aphonsus de Guimaraens (Afonso Henrique da Costa Guimarães) 1870 – 1921, Mariana/MG

Quando em teus olhos reluz
o carinho de uma prece,
se é dia, o sol tem mais luz

se é noite, logo amanhece.

domingo, 12 de julho de 2015

A NATUREZA
Khalil Gibran

Ao romper do dia, sentei-me na campina, travando conversa com a Natureza, enquanto o Homem ainda descansava sossegadamente nas dobras da sonolência. Deitei-me na relva verde e comecei a meditar sobre estas perguntas: – Será a Beleza Verdade? Será Verdade a Beleza? E em meus pensamentos vi-me levado para longe da humanidade. Minha imaginação descerrou o véu de matéria que escondia meu íntimo. Minha alma expandiu-se e senti- me ligado à Natureza e a seus segredos. Meus ouvidos puseram-se atentos à linguagem de suas maravilhas. Assim que me sentei e me entreguei profundamente à meditação, senti uma brisa perpassando através dos galhos das árvores e percebi um suspiro como o de um órfão perdido. – “Por que te lamentas, brisa amorosa?” perguntei. E a brisa respondeu: – “Porque vim da cidade que se escalda sob o calor do sol, e os germes das pragas e contaminações agregaram-se às minhas vestes puras. Podes culpar-me por lamentar-me?” Mirei depois as faces de lágrimas coloridas das flores e ouvi seu terno lamento... E indaguei: – “Por que chorais, minhas flores maravilhosas?” Uma delas ergueu a cabeça graciosa e murmurou: – “Choramos porque o Homem virá e nos arrancará, e nos porá à venda nos mercados da cidade.” E outra flor acrescentou: – “À noite, quando estivermos murchas, ele nos atirará no monte de lixo. Choramos porque a mão cruel do Homem nos arranca de nossas moradas nativas.” Ouvi também um riacho lamentando-se como uma viúva que chorasse o filho morto, e o interroguei: – “Por que choras meu límpido riacho?” E o riacho retrucou: – “Porque sou compelido a ir à cidade, onde o Homem me despreza e me rejeita pelas bebidas fortes, e faz de mim carregador de seu lixo, polui minha pureza e transforma minha serventia em imundície.” Escutei, ainda, os pássaros soluçando e os interpelei: – “Por que chorais meus belos pássaros?” E um deles voou para perto, pousou na ponta de um ramo e justificou: – “Daqui a pouco, os filhos de Adão virão a este campo com suas armas destruidoras e desencadearão uma guerra contra nós, como se fôssemos seus inimigos mortais. Agora estamos nos despedindo uns dos outros, pois não sabemos quais de nós escaparão à fúria do Homem. A morte nos segue, aonde quer que vamos.” Então o sol já se levantava por trás dos picos da montanha e coloria os topos das árvores com auréolas douradas. Contemplei tão grande beleza e me perguntei: – “Por que o homem deve destruir o que a Natureza construiu?”


Gibran Khalil Gibran nasceu em Bicharre/Líbano, em 6 de janeiro de 1883, também conhecido simplesmente como Khalil Gibran), foi um ensaísta, filósofo, prosador, poeta, conferencista e pintor de origem libanesa, cujos escritos, eivados de profunda e simples beleza e espiritualidade, alcançaram a admiração do público de todo o mundo. Seu nome completo, transliterado para línguas ocidentais (de base alfabética predominantemente neo-latina), é Gibran Khalil Gibran, assim assinando em árabe. Em inglês (pois foi nos Estados Unidos que ele desenvolveu a maior parte da sua atividade produtiva, preferiu a forma reduzida e ligeiramente modificada de Khalil Gibran. E assim se conhece em todo o mundo ocidental. Em sua relativamente curta, porém prolífica existência (viveu apenas 48 anos), Khalil Gibran produziu obra literária acentuada e artisticamente marcada pelo misticismo oriental, que — por essa razão (carece de fontes) — alcançou popularidade em todo o mundo. Sua obra, acentuadamente romântica e influenciada por fontes de aparente contraste como a Bíblia, Nietzsche e William Blake, trata de temas como o amor, a amizade, a morte e a natureza, entre outros. Escrita em inglês e árabe, expressa as inclinações religiosas e místicas do autor. Sua obra mais conhecida é o livro O Profeta, que foi originalmente publicado no idioma inglês e traduzido para inúmeros outros idiomas mundo afora. Outro livro de destaque é Asas Partidas, em que o autor fala de sua primeira história de amor. Gibran Khalil Gibran faleceu em 10 de abril de 1931 (Nova Iorque, Estados Unidos).

(ALMANAQUE CHUVA DE VERSOS Nº 411, JOSÉ FELDMAN)