terça-feira, 28 de outubro de 2014

BONS TEMPOS...

BONS TEMPOS...

                                      Filemon F. Martins

       Hoje, o dia amanheceu frio e uma chuvinha fina, muito fina me fez permanecer em casa. Não havia o que fazer. Vi um pouco de televisão, li jornais e escrevi algumas linhas.
       A inspiração também não me pareceu bem disposta. Talvez o tempo frio esteja atrapalhando e então me pus a lembrar. Lembrei-me dos tempos idos. Faz muito tempo, lá em Ipupiara, no interior da Bahia, eu e o primo Jeremias (fomos sempre amigos e andávamos juntos) estávamos no meio de grandes mangueiras. Na Bahia são muito comuns grandes pés de manga. Uma delícia. Não foi a toa que o poeta Carlos Ribeiro Rocha escreveu: “Velha mangueira – altar da Natureza,/onde cantam contritos passarinhos,/dos ramos implorando mais beleza/para o adorno macio dos seus ninhos!”
       Pois bem, havia uns 25 pés de manga de várias espécies, entre outras, manga comum, espada (lá não se diz “Bourbon”), manga rosa, manga papo e outras que não me recordo agora.
       O primo quis apostar comigo: seria capaz de subir no primeiro pé de manga e sem tocar a terra descer no último pé de manga do pomar do meu avô Gasparino. Aposta feita, lá fomos nós pelos galhos das mangueiras, como se fossemos macacos a pular, de galho em galho, até chegarmos ao último pé de manga.
       Ninguém venceu a aposta, mesmo porque nós dois conseguimos o feito. Chegávamos a casa à noitinha e a porta já estava trancada com a tramela. Era preciso chamar alguém para abrir a tramela e aí não tinha jeito: era necessário explicar a demora. E lá vinha bronca...
       Hoje, quase nada mais resta daquelas mangueiras do pomar e do que fomos também. Só as lembranças e as saudades é que permaneceram intactas. Bons tempos, meu caro Jerry.


(Do livro “FAGULHAS”, Scortecci Editora, 2013, página 41)



segunda-feira, 27 de outubro de 2014

SONETO (LUIS RUIZ CONTRERAS)

SONETO

LUIS RUIZ CONTRERAS (1863)

Não, não temas... Que a minha boca impura
nada dirá do que meu peito sente,
não, não receies que meu beijo ardente
possa manchar-te a virginal brancura!

Nem temas ver em torno da cintura
meu braço – como astuta e vil serpente –
nem que teus puros sonhos de inocente,
destrua, em seu cantar, minha loucura.

Ah! Meus olhos, no entanto, consumidos
ao fogo dos teus olhos, meu desejo
atiçam, loucos, num incêndio mudo,

tua imagem levando aos meus sentidos...
E eu te possuo com o olhar, te beijo!
E tu sorris, amor... e ignoras tudo!


(OS MAIS BELOS SONETOS QUE O AMOR INSPIROU, PÁGINA 95)

TROVAS DE VIDAL IDONY STOCKLER

TROVAS DE VIDAL IDONY STOCKLER (29/09/1924 a 25/10/2014)

A trova deita raiz
de união e de esplendores
riqueza é como se diz:
É berço dos trovadores.
 
 
Bem feliz vive o poeta,
peregrino e sonhador,
luzeiro que se completa
no sonho do trovador!
 
 
E nasce a trova sorrindo
na mente do trovador,
é o botão da flor abrindo
mostrando o rico esplendor.
 
 
Trovadores do Brasil,
cultuando nosso chão
com beleza tão sutil
e que toca o coração.
 
 
Hoje, dezoito de julho
festejamos com amor
e também com muito orgulho
o dia do trovador.


(UBT – CURITIBA-PR)

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

ÚLTIMO FANTASMA (CASTRO ALVES)

ÚLTIMO FANTASMA
Castro Alves (Espumas Flutuantes)

Quem és tu, quem és tu, vulto gracioso,
Que te elevas da noite na orvalhada?
Tens a face nas sombras mergulhada...
Sobre as névoas te libras vaporoso...

Baixas do céu num vôo harmonioso!...
Quem és tu, bela e branca desposada?
Da laranjeira em flor a flor nevada
Cerca-te a fronte, ó ser misterioso!...

Onde nos vimos nós?... És doutra esfera?
És o ser que eu busquei do sul ao norte...
Por quem meu peito em sonhos desespera?...

Quem és tu? Quem és tu? — És minha sorte!
És talvez o ideal que est'alma espera!

És a glória talvez! Talvez a morte!...

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

NA MÃO DE DEUS (ANTERO DE QUENTAL)

NA MÃO DE DEUS
Antero de Quental

Na mão de Deus, na sua mão direita,
descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
a ignorância infantil, despojo vão,
depus do Ideal e da Paixão
a forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
que a mãe leva ao colo agasalhada
e atravessa, sorrindo vagamente,

selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
dorme na mão de Deus eternamente!


(Livro GRANDES SONETOS DA NOSSA LÍNGUA, PÁGINA 104)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

POEMA PORTUGUÊS 6 (FERREIRA GULLAR)

POEMA PORTUGUÊS 6
FERREIRA GULLAR

Calco sob os pés sórdidos o mito
que os céus segura – e sobre um caos me assento.
Piso a manhã tombada no cimento
como flor violentada. Anjo maldito,

(pretendi devassar o nascimento
da terrível magia) agora hesito,
e queimo - e tudo é o desmoronamento
do mistério que sofro e necessito.

Hesito, é certo, mas aguardo o assombro
com que verei descer de céus remotos
o raio que me fenderá no ombro.

Vinda a paz, rosa-após dos terremotos,
eu mesmo ajuntarei a estrela ou a pedra
que de mim reste sob os meus escombros.


(LIVRO GRANDES SONETOS DA NOSSA LÍNGUA, PÁGINA 209)

terça-feira, 21 de outubro de 2014

TROVAS DE J. G. DE ARAÚJO JORGE

Por certo a pior solidão
é aquela que a gente sente
sem ninguém no coração...
no meio de muita gente...

Praias longe, em solidão,
fora de todas as rotas,
tal como o meu coração
só com o sonho... das gaivotas...

Enriquece quem mais tira...
Trabalhar? Lenta agonia...
Democracia? Mentira!
Simples Dinheirocracia...

Ó liberdade, o teu crime
é ser burguesa também
e servir a esse regime
em que “só vale quem tem”!

(Livro TREVOS DE QUATRO VERSOS, - TROVAS, 1964)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

NOSTALGIA (JOSÉ OUVERNEY)

NOSTALGIA

JOSÉ OUVERNEY

Desmaia a tarde e a sorrateira brisa,
varanda a dentro, lépida e frugal,
a beliscar meu peito sem camisa
vai desenhando um gesto sensual.

Em lenta despedida o sol desliza,
jorrando sangue sobre o bambual,
e a lua acende a lâmpada, indecisa,
tremeluzindo sobre o meu quintal.

Um pouco mais de espera e surge a noite:
a casa, de repente, tão vazia,
desperta a minha lúdica ansiedade;

e o beliscar da brisa vira açoite,
notadamente quando a nostalgia
bate no peito, e acorda esta saudade!...


(DO SITE FALANDO DE TROVA)

domingo, 19 de outubro de 2014

TROVAS DO FILEMON

TROVAS
Filemon F. Martins

No passado fui petista
e houve tanta decepção,
que, agora sou realista,
voto contra o mensalão!

Acredite, companheiro, 
em tempos de mensalão, 
não haverá brasileiro 
que aguente tanto ladrão.


filemon.martins@uol.com.br 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

POR QUE TANTAS MENTIRAS?

POR QUE TANTAS MENTIRAS?

Filemon F. Martins

                                                    


Nestes últimos tempos, o domínio da mentira tem prevalecido sobre a verdade. A mentira, repetida e colorida com vivas cores, tem manipulado grande parte da sociedade que, aos poucos, vai assimilando a banalização da violência, da falta de caráter, da imoralidade, da corrupção, do crime e da desonestidade, aceitando, de forma passiva o que acontece, como se tudo fosse normal.
Afonso Romano de Sant’Anna, em seu poema A IMPLOSÃO DA MENTIRA, diz tudo: “Mentiram-me. Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente. Mentem de corpo e alma completamente. E mentem de maneira tão pungente que acho que mentem sinceramente. Mentem, sobretudo impunemente. Não mentem tristes, alegremente mentem. Mentem tão nacionalmente que acho que mentindo história a fora vão enganar a morte eternamente. Mentem, mentem e calam, mas nas frases falam e desfilam de tal modo nuas que mesmo o cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas. Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura, mas não se chega à verdade pela mentira nem à democracia pela ditadura. (...) Mentem partidariamente, mentem incrivelmente, mentem tropicalmente, mentem hereditariamente, mentem, mentem e de tanto mentir tão bravamente constroem um país de mentiras diariamente”.


(Fragmentos do livro FAGULHAS, página 114, de Filemon F. Martins)


INGRATIDÃO

INGRATIDÃO
RAUL DE LEONI (Petrópolis-RJ-1895/1926)

Nunca mais me esqueci!... Era criança
e em meu velho quintal, ao sol-nascente,
plantei, com minha mão ingênua e mansa,
uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança...
cresceu... cresceu... e aos poucos, suavemente,
pendeu os ramos sobre um muro em frente
e foi frutificar na vizinhança...

Daí por diante, pela vida inteira,
todas as grandes árvores que em minhas
terras, num sonho esplêndido semeio,

como aquela magnífica amendoeira,
reflorescem nas chácaras vizinhas
e vão dar frutos no pomar alheio...


(Do site FALANDO DE TROVA)

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

TROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA

TROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA
(Ipupiara-1923 - Salvador-2011)

O que eu dizia, em meu canto,
na trova, agora, reforço:
nenhum dente morde tanto
como dente do remorso...

Se queres, na tua estrada,
um quadro que te conforte,
vê, na semente plantada,
a vida dentro da morte.

A terra, a mata florida,
o mundo e os portentos seus,
isto é a grandeza da vida,
e a vida – a força de Deus.

Rui Barbosa – no seu trilho
como fonte, o verbo flui!
Se a inteligência tem brilho,

brilhava essa estrela em RUI.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

TROVAS DE MÁRIO BARRETO FRANÇA

TROVAS DE MÁRIO BARRETO FRANÇA

Quem se esforça na escalada
da Política, na vida
- ou é vendido na entrada,
- ou é roubado à saída.

Ser feliz não é ser nobre,
não é ser rico também,
mas é saber, rico ou pobre,
conformar-se com o que tem.

Se queres vencer na vida,
não faças degraus de alguém;
a vitória merecida
tem alicerces no bem.

Você que sobe, cuidado!
Na queda, as honras se vão...
Quem vive muito elevado,
se esquece que existe o chão.


(SITE FALANDO DE TROVA)

terça-feira, 14 de outubro de 2014

TROVAS DE SYMACO DA COSTA

TROVAS DE SYMACO DA COSTA (Canavieiras-Ba-1914-Queimados-RJ-1982)

Quanto mais o tempo corre,
mais corre o tempo da gente,
e quem ao tempo recorre
perde o tempo inutilmente.

Do inimigo aperte a mão,
com doçura, sem rancor.
Ao contato do perdão
toda pedra vira flor!...

Para o mal, eu tenho o bem;
para o ódio, o meu perdão.
Para o amor, tenho também
muito amor no coração.

Contar segredo à mulher
é falar ao mundo inteiro
aquilo que não se quer
que o mundo saiba primeiro.

Há tanto burro mandando
em homens de inteligência
que, às vezes, fico pensando
que a burrice é uma ciência.


(Do site FALANDO DE TROVA)

AS CLARITROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA

AS CLARITROVAS DE CARLOS RIBEIRO ROCHA
(Ipupiara-1923 – Salvador-2011)

Não tenho a força do bruto,
na mente é que tenho músculos,
vai-se a flor, suscita o fruto,
vai-se o sol, deixa crepúsculos!

Através da pátria inteira
trovas deixo em minhas trilhas,
irei levando a bandeira
triunfante das redondilhas!

Se tenho bom coração,
não temerei as procelas,
redondilho do apagão,
se não me faltarem velas.

Morrendo, abro um deserto?...
E meus poemas dispersos?...
O meu ocaso, por certo,
será feito só de versos.

Apesar da adversidade,
não se apagarão meus sonhos,
nada faz mais claridade
que as velas dos meus neurônios.


(Do livro PORTA ABERTA, página 17)

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

TROVAS PARA REFLETIR (Maria Thereza Cavalheiro)

TROVAS PARA REFLETIR
MARIA THEREZA CAVALHEIRO

Quem não faz, risco não corre.
Erro... engano...quem não falha?
Só pode errar quem socorre,
age, executa, trabalha!

A cada dia que passa,
a vida é prêmio em disputa.
A roupa é simples couraça
com que se parte pra luta.

Trabalho não intimida
quem enfrenta os seus rigores.
E é bom que sejas na vida
o melhor no que tu fores!

Quem labuta e não receia
viver por seu ideal,
se da sela não apeia,
um dia chega, afinal.


(Do livro TROVAS PARA REFLETIR, PÁGINA 13)

domingo, 12 de outubro de 2014

IPUPIARA

IPUPIARA

(Retratada no livro “Coronelismo no Antigo     Fundão de Brotas,” de Mário Ribeiro Martins)

Filemon F. Martins

Cravada no Sertão, jardim de flores,
nasceu uma cidade hospitaleira.
Seus campos coloridos, sedutores,
tornam a vida bela e corriqueira.

Berço de heróis, poetas, escritores,
produzem versos na cidade ordeira.
O clima é quente, bom e aviva as cores
da alegria que é sempre verdadeira.

Ipupiara é flor cheia de encanto,
cuja beleza inspira o bem, porquanto
as alegrias são puras e completas.

Há de brilhar no céu, mesmo à distância,
esta Terra de amor e de elegância,
pois tu és a cidade dos Poetas!

filemon.martins@uol.com.br

 





sexta-feira, 10 de outubro de 2014

BARRA DO MENDES

BARRA DO MENDES
Filemon F. Martins

Plantada no Sertão, Velha Chapada,
aos pés da bela Serra Santa Cruz,
Barra do Mendes cresce, abençoada,
sob o signo da Fé, plena de Luz.

A Natureza esbelta foi talhada,
mas a Amizade é flor que nos seduz,
porque a cidade acolhe gente honrada
e a um futuro brilhante nos conduz.

Grutas, lagoas, rios, cachoeiras,
paisagens deslumbrantes, gameleiras,
riquezas naturais que tu deténs.

Bem haja o teu valor, Barramendense,
o teu progresso a todos já convence,
eu te saúdo, então, meus parabéns!

Caixa Postal 64
11740-970 – Itanhaém – SP.

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